Robaina: ''Temos que pagar os servidores públicos em primeiro lugar''

por Jornal Canudos

Com a definição dos candidatos a governador do estado, o Jornal Canudos inicia entrevistas com os postulantes ao cargo máximo do Executivo gaúcho que vêm a Novo Hamburgo. A reportagem preparou cinco perguntas, feitas de igual modo para todos eles, com o objetivo de promover o debate de ideias e o fortalecimento da democracia.

Confira a entrevista realizada com o candidato do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) ao governo do estado, Roberto Robaina.

Caso eleito governador, qual sua prioridade de investimentos para o estado do Rio Grande do Sul?

Em primeiro lugar, temos que pagar os servidores públicos. Esse governo não tem pago, e atrasa salários. Além de ser um desrespeito com quem trabalha, porque é lei, quem trabalha deve receber por isto, é um tipo de iniciativa governamental que prejudica também os municípios. Os servidores públicos são uma base muito importante do consumo no estado, da alimentação, do comércio, portanto, deste desenvolvimento econômico, além do aumento do nível de emprego. Com esse tipo de política, o governo, na verdade, está provocando recessão, de tal forma que, para falar em investimentos, a primeira medida que devemos resolver é essa grave agressão contra os direitos dos servidores. É uma agressão que afeta a população, porque a camada mais pobre é a que mais necessita dos serviços públicos, e também afeta a economia e a capacidade de investimento. Isso reduz o comércio, o emprego, e gera uma situação de crise cada vez mais agravada.

Na sua opinião, o Rio Grande do Sul passa por uma crise? Por que?

O Rio Grande do Sul passa por uma crise grave, de muito tempo, também pela crise nacional, evidentemente, que não pode ser desconsiderada. São três anos de recessão. Neste período, tivemos 10% de queda do Produto Interno Bruto, e a base da crise nacional também é a mesma do estado. Os governos não enfrentaram os interesses do capital financeiro. No plano nacional, isso é o mais grave. Temos, hoje, uma política de juros que faz o Brasil ser o campeão em taxas de juros do planeta, e isso tem afetado todo o sistema de crédito de modo geral, o comércio nas lojas, além do endividamento das famílias. Hoje, 60% das famílias brasileiras estão endividadas, no cartão de crédito e rotativo. Também, no caso do estado, por incrível que pareça, é parte do sistema da dívida que leva dinheiro para os bancos, o processo de drenagem dos nossos recursos através do pagamento do débito estadual com a União, porque quem detêm os títulos públicos também são os bancos. É o sistema financeiro que tem ganho no país. Enquanto este sistema não for enfrentado, a crise vai ser paga pelos de baixo, trabalhadores, serviços públicos, comércio, pequenas produções, pequenos proprietários. Isso é o que temos presenciado.

Como governar de maneira eficiente com os municípios, com as pautas municipalistas, como a segurança pública e educação, e com a União, principalmente com relação ao tamanho da dívida estadual?

A dívida estadual não pode ser paga, e o Supremo Tribunal Federal, ao dar ganho de causa para o estado numa liminar que suspendeu o pagamento, mostrou que essa dívida é ilegal. Evidentemente, se nós temos um governo que é inimigo do estado, vai significar algum nível de conflito e, portanto, o não-pagamento não é suficiente em termos de acumulação de recursos para que os cofres estaduais ajudem a induzir o crescimento econômico com investimentos planejados. Necessitamos combater a sonegação, também são os grandes empresários que devem para o estado, atualmente é quase R$ 50 bilhões a dívida que o estado tem para receber deles. A maioria dessas dívidas já não tem como ser paga, porque são empresas que faliram, enfim, esses recursos já não são resgatáveis. Mas nós temos os cálculos da Receita do estado, que pelo menos de 12 a 13 bilhões podem ser recuperados, são recursos importantes para que possamos ter alguma capacidade de investimento.

Como fazer, na sua opinião, com que a população passe a confiar na política? Que essa confiança com a política passe a fazer parte do cotidiano dos cidadãos?

Eu acho que a população não confiar na política como está é bom, porque a política, como está, realmente não é confiável. Ela tem sido dominada por grandes empresas, por políticos vigaristas. As experiências que nós tivemos de tentar mudar tiveram algum vigor, mas infelizmente, depois, vimos que mesmo aqueles projetos que eram supostamente alternativos acabaram se adaptando e participando desses mecanismos de poder. Então não é fácil as pessoas acreditarem, num cenário tão ruim como o que temos. A questão pela qual lutamos, é para que a população participe ativamente, lute, se mobilize, se organize, defenda seus direitos, seus interesses, seja nas fábricas, nos locais de trabalho, nas escolas, sejam os servidores públicos defendendo seus salários e não aceitando parcelamento, a juventude buscando políticas públicas para que tenhamos alternativas na área da cultura, lazer, o movimento de mulheres lutar pelos seus direitos. Temos visto que essa capacidade de organização e mobilização delas aumentou, assim como a da comunidade LGBT no combate à LGBTfobia. Esperamos também que o movimento negro se mobilize na luta contra o racismo. Então nosso chamado é um chamado geral à tentativa da sociedade de se mobilizar, e essa é nossa esperança.

Um recado para a comunidade do bairro Canudos, o maior do interior do Estado, com cerca de 70 mil habitantes, e para a cidade de Novo Hamburgo.

Que as pessoas busquem confiar na sua força, se organizar na sua comunidade, que vocês possam fazer com que a associação de moradores exista e se fortaleça. Em cada rua, comecem a conversar com seus vizinhos, demandem da Prefeitura que as obras sejam feitas, que o serviço de saúde seja decente, que a juventude tenha espaço para poder ocupar as praças. O nosso apelo é que aumente a capacidade das pessoas se associarem, se unirem para defender seus interesses. Infelizmente gostaria que fosse diferente, que tivéssemos políticos e pessoas que pudessem resolver os problemas e pudéssemos nos dedicar à vida cotidiana, ao lazer com a família, mas não é essa a realidade. Além do trabalho cotidiano para garantir a sobrevivência, estudo, alimentação e lazer, é preciso também se associar e se organizar para defender os seus direitos, e não se pode esperar pelos políticos para fazer isso, porque temos visto que a espera não resolve.

 

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